Proposta construtivista - Há algum problema nesta proposta?

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Para se trabalhar com a proposta construtivista é preciso primeiramente avaliar em que fase a criança se encontra e o que faz parte da realidade dela, para que seja possível realizar um trabalho a partir deste universo. Então, o educador realizará atividades desafiadoras para o pensamento das crianças e gerar conflitos cognitivos que permitam a participação integral da criança e as ajudem a buscar novas respostas.

            Os estudos de Piaget, Ferreiro e Teberosky mostram que outras propostas de ensino funcionam, mas não desenvolvem o aluno cognitivamente e a proposta construtivista pretende sanar essa necessidade.

            A grande vantagem deste método é que a criança é o principal agente da aprendizagem, gerando um maior interesse por parte dela, e o professor sente uma maior necessidade de se manter atualizado.

            Segundo o texto estudado, existe duas desvantagens: a proposta não se adapta a organização de séries, ficando mais difícil a compreensão dos pais, pois a aprendizagem não é imediata, respeita a fase da criança; e a insegurança do professor por não trabalhar com uma plano fechado.

          O construtivismo se refere ao processo de aprendizagem, que coloca o sujeito da aprendizagem como alguém que conhece e que o conhecimento é algo que se constrói pela ação deste sujeito. Nesse processo de aprendizagem o ambiente também exerce seu papel, pois, o sujeito que conhece faz parte de um determinado ambiente cultural.

Para que a proposta construtivista seja realizada, portanto, também é preciso modificar o ambiente alfabetizador, incorporando materiais que estimulem o desejo pela leitura, porém, também é preciso que o professor esteja preparado para utilizar-se desses materiais adequadamente.

"... A minha contribuição foi encontrar uma explicação segundo a qual, por trás da mão que pega o lápis, dos olhos que olham, dos ouvidos que escutam, há uma criança que pensa" (Emília Ferreiro)

Segundo Magda Soares*, a perspectiva construtivista trouxe importante  e diferentes contribuições para a alfabetização:

[...] Alterou profundamente a concepção do processo de construção da representação da língua escrita, pela criança, que deixa de ser considerada como dependente de estímulos externos para aprender o sistema de escrita, concepção presente nos métodos de alfabetização até então em uso, hoje designados tradicionais, e passa a sujeito ativo capaz de progressivamente (re) construir esse sistema de representação, interagindo com a língua escrita em seus usos e práticas sociais, isto é, interagindo com material para ler, não com material artificialmente produzido para aprender a ler; os chamados para a aprendizagem pré-requisitos da escrita, que caracterizam a criança pronta ou madura para ser alfabetizada - pressuposto dos métodos tradicionais de alfabetização - são negados por uma visão interacionista, que rejeita uma ordem hierárquica de habilidades, afirmando que a aprendizagem se dá por uma progressiva construção do conhecimento, na relação da criança com o objeto língua escrita; as dificuldades da criança no processo da construção do sistema de representação que é a língua escrita- consideradas deficiências ou disfunções, na perspectiva dos métodos tradicionais - passam a ser vistas como erros construtivos, resultado de constantes reestruturações.

            Ou seja, a criança desenvolve um senso de responsabilidade por seu próprio aprendizado, entende o mundo espontaneamente por assimilação, organizando os dados do exterior de uma maneira própria. As idéias de Piaget garantiram que havia um mecanismo natural de aprendizagem e que a escola deveria acompanhar a curiosidade da criança, propondo atividades com temas que a interessassem naquele momento, sem se prender a um currículo rígido.

No entanto, aconteceu uma redução do construtivismo à uma teoria de aquisição de língua escrita e transformação de uma investigação acadêmica em método de ensino. Com esses equívocos, difundiram-se, sob o rótulo de pedagogia construtivista, as idéias de que não se devem corrigir os erros e de que as crianças aprendem fazendo "do seu jeito". Essa pedagogia dita construtivista, trouxe sérios problemas ao processo de ensino e aprendizagem, pois desconsidera a função primordial da escola que é ensinar, intervindo para que os alunos aprendam o que, sozinhos, não têm condições de aprender.
           Em relação a alfabetização pode-se, nesse caso, dizer segundo Terezinha Nunes,
"talvez a contribuição mais significativa que o construtivismo já ofereceu à alfabetização (foi) auxiliar as alfabetizadoras na tarefa de compreender as produções da criança e saber respeitá-las como construções genuínas, indicadoras de progresso, e não como erros absurdos.” No construtivismo a maneira de construir o saber é muito ampla, incluindo realmente as idéias de descobrir, inventar, redescobrir, criar; sendo que aquilo que se faz é tão importante quanto o como e porque fazer.

Durante minha prática em sala de aula e experiência em diferentes redes de ensino pude perceber que existiram e ainda existem muitas idéias que distorcem o construtivismo, e as mais comuns são:

- Não se deve corrigir o erro do aluno.

            Mas os erros dos alunos podem dar pistas importantes sobre as capacidades de assimilação.

- Ser construtivista é colocar o aluno para trabalhar em grupo.

            O trabalho em grupo, sem nenhum tipo de orientação, acaba sendo utilizado simplesmente como um modo de exigência da Secretaria de Educação.

- O Construtivismo condena o uso da cartilha.

            Em sua interação com o meio, o sujeito pode dispor de diversos estímulos, incluindo os de uma cartilha. Cabe, então, a busca e a produção de materiais que ofereçam apoio às atividades de ensino, de forma a superar o verbalismo e a repetição sem sentido.

- O papel do professor é o de facilitador da aprendizagem. Ele não deve interferir, mas deixar a criança descobrir sozinha.

            Pode-se levar ao entendimento de que o ato de ensinar é negativo, ou seja, quando o professor ensina, ele impede o aluno de construir conhecimentos.

Para Piaget (1977, p. 18), “O que se deseja é que o professor deixe de ser apenas um

conferencista e que estimule a pesquisa e o esforço, ao invés de se contentar com a transmissão de soluções já prontas (...) Seria absurdo imaginar que, sem uma orientação voltada para a tomada de consciência das questões centrais, possa a criança chegar

apenas por si a elaborá-las com clareza”.

 

O que Piaget condena, portanto, é o excesso de verbalismo na transmissão dos conteúdos escolares.

 

- O professor construtivista trabalha o que o aluno traz de casa.

Pode levar a um esvaziamento dos conteúdos escolares à medida que se centra no conhecimento cotidiano.

- O que importa é desenvolver o raciocínio, o conteúdo é secundário.

Leva, no mínimo, à insegurança entre os professores: se os conteúdos escolares não são importantes, o que devem ensinar em suas aulas? E como fazer para desenvolver o raciocínio de seus alunos sem um conteúdo que lhe dê suporte? A mais grave conseqüência de um “ensino sem conteúdo” é, certamente, o enfraquecimento da escola como local onde transitam idéias e conhecimentos que possibilitam a continuidade da cultura humana.

- O construtivismo condena o ensino da gramática e da tabuada.

Percebe-se aqui certa distorção, pois não exigir de imediato a correção ortográfica, no início da alfabetização, não é a mesma coisa que não corrigir o aluno.

- O aluno só aprende com a própria atividade e deve ser deixado livre para agir.

A crença de que o Construtivismo favorece a indisciplina na sala de aula tem apoio nesse slogan, que dá a entender que a criança deve ser deixada livre para fazer o que quiser, mesmo dentro da sala de aula. Porém, não é preciso salientar que um ambiente calmo e organizado na sala de aula favorece a reflexão e dá condições para o aprendizado. Diferentemente do que é caracterizado como ensino tradicional, em que disciplina significa ter alunos calados e imóveis, ouvindo a exposição do professor, no Construtivismo, a liberdade se refere à oportunidade de participação ativa do aluno dentro da organização proposta para a aula.

Enfim, todas essas distorções levaram a uma grande defasagem na aprendizagem na maioria das escolas fazendo com que muitas vezes o construtivismo fosse desacreditado.

Para o professor como profissional, é imprescindível manter a dignidade do seu papel como agente que interfere na situação educativa, transmitindo às novas gerações os conteúdos culturalmente valiosos que permitirão aos alunos compreender, interpretar e transformar o mundo em que vivem.

 

 

* Citação extraída do artigo Letramento e alfabetização: as muitas facetas, de Magda Soares, apresentado na 26ª Reunião Anual da ANPED. GT Alfabetização, Leitura e Escrita. Poços de Caldas, 7 de outubro de 2003.

 

sexta 23 abril 2010 20:32



4 comentário(s)

  • Camila Vitorio mailto Ter 24 Set 2013 21:33
    Gostei muito dessa matéria sobre o Construtivismo.
  • SILVIA TREVISANI mailto Qui 24 Nov 2011 12:51
    O que é belo ou certo,
    você poderá me dizer.
    Sou bastante esperto,
    para entender.

    Não tenho dificuldade,
    pode até constatar.
    Estou com pouca idade
    mas já posso estudar.

    Só precisa ter paciência
    para me organizar.
    É muita ciência
    para internalizar.

    A vida de criança
    não é muito complicada.
    Pode ter segurança
    que estou concentrada.

    Estou aprendendo
    e organizando meu pensamento!

    de Silvia Trevisani - psicopedagoga e escritora de Campinas

    http://escritorasilviatrevisani.blogspot.com/
  • organizandoideias Qua 26 Mai 2010 01:42
    Olá Deusyllene!
    Veja bem, algumas instituições promovem cursos de extensão ou especialização, seminários, palestras e reuniões de estudo com essa finalidade. Mas nesses cursos não se ensina a ser construtivista. Neles se discute a prática da professora, de modo que ela ganhe elementos para encontrar seu próprio caminho, mais ou menos como depois irá fazer em relação ao aluno.
    Durante a graduação em pedagogia, esse assunto é discutido e na pós em psicopedagogia tbm.
  • organizandoideias Ter 11 Mai 2010 01:36
    Sem dúvidas!!


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